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    Ginecologia

    Adenomiose: a "irmã" da endometriose que vive dentro do útero

    26 Abr 2026
    13 min de leitura

    Útero aumentado, cólicas severas e sangramento intenso? Pode não ser apenas endometriose. Existe uma condição muito frequente, subdiagnosticada e profundamente ligada à infertilidade: a adenomiose. Em linguagem simples, ela é uma doença em que o endométrio "invade" o músculo do útero, deixando a parede uterina espessada, dolorosa e inflamada.

    A diferença com a endometriose parece sutil, mas muda tudo: na endometriose, o tecido semelhante ao endométrio está fora do útero; na adenomiose, ele está dentro da parede muscular uterina. Isso explica o útero aumentado, com consistência globosa, cólicas intensas, sangramento abundante e dificuldade para engravidar — especialmente em FIV.

    Resumo em 3 pontos

    • 1.Adenomiose é tecido endometrial dentro do músculo uterino, causando útero aumentado, cólicas e sangramento intenso.
    • 2.É frequentemente associada a falhas de implantação na FIV e abortos repetidos, mesmo com embriões de boa qualidade.
    • 3.O diagnóstico hoje é feito por ultrassom transvaginal especializado e ressonância magnética — sem necessidade de cirurgia.

    O que é adenomiose?

    Adenomiose é a presença de glândulas e estroma endometriais no interior do miométrio, ou seja, na camada muscular do útero. Essa invasão provoca hipertrofia da musculatura uterina, aumento do volume do útero, inflamação crônica e alteração da contratilidade. Em termos práticos, o útero fica "doente por dentro", mesmo sem haver lesões fora dele.

    Pode ocorrer de forma difusa, acometendo grande parte da parede uterina, ou focal, formando um nódulo localizado (adenomioma). A forma focal ganhou destaque por causar impacto importante na implantação embrionária mesmo quando o quadro clínico é menos exuberante.

    Adenomiose x endometriose

    • Endometriose: tecido semelhante ao endométrio fora do útero, geralmente na pelve.
    • Adenomiose: tecido semelhante ao endométrio dentro da parede muscular do útero.
    • Podem coexistir: muitas pacientes têm as duas condições, o que aumenta dor, sangramento e dificuldade reprodutiva.
    Ilustração anatômica do útero com adenomiose

    Quem tem mais risco e qual a prevalência?

    A prevalência varia bastante conforme o método diagnóstico. Em estudos com ultrassom transvaginal e ressonância magnética, é encontrada em parcela importante das mulheres com sangramento menstrual intenso, dor pélvica crônica ou infertilidade. Historicamente descrita em mulheres entre 35 e 50 anos, multíparas, hoje sabemos que também pode aparecer em mulheres mais jovens, inclusive em pacientes com infertilidade.

    Fatores associados

    • Idade reprodutiva tardia.
    • História de procedimentos uterinos prévios.
    • Coexistência com endometriose.
    • Sangramento menstrual abundante e dismenorreia progressiva.
    • Infertilidade, falhas de implantação e abortos repetidos.

    Por que a adenomiose acontece?

    A fisiopatologia ainda é complexa, mas envolve uma combinação de fatores mecânicos, hormonais, inflamatórios e alterações da chamada zona juncional — a camada de transição entre endométrio e músculo uterino. Quando essa zona está alterada, glândulas endometriais migram para o miométrio, com aumento de contratilidade uterina e inflamação local.

    Achados biológicos importantes

    • Inflamação crônica e microambiente uterino hostil.
    • Aumento de estrogênio local no miométrio.
    • Alteração da contratilidade uterina e da zona juncional.
    • Marcadores de implantação desfavoráveis.

    Sintomas: quando suspeitar?

    O quadro clássico inclui cólicas menstruais intensas, sangramento abundante e útero aumentado. Mas a doença pode ser mais silenciosa, especialmente na forma focal, e só aparecer quando a paciente tenta engravidar.

    Sintomas mais comuns

    • Cólicas menstruais muito fortes e progressivas.
    • Sangramento menstrual intenso ou prolongado.
    • Dor pélvica crônica e sensação de "peso" uterino.
    • Dispareunia (dor na relação) em algumas pacientes.
    • Infertilidade ou falhas repetidas de implantação.

    Sinais de alerta

    • Útero aumentado ao toque bimanual.
    • Menstruação com coágulos e anemia recorrente.
    • Dor cíclica intensa que não melhora com analgésicos comuns.
    • FIV com embriões de boa qualidade e implantação repetidamente negativa.

    Como é feito o diagnóstico?

    Hoje, a adenomiose é diagnosticada principalmente por imagem, com ultrassom transvaginal especializado e ressonância magnética da pelve. Não é mais necessário esperar a histerectomia para confirmar a doença.

    Ultrassom transvaginal especializado

    Mostra espessamento assimétrico da parede uterina, estrias subendometriais, cistos miometriais, irregularidade da zona juncional e aumento do útero. É acessível, dinâmico e pode ser repetido.

    Ressonância magnética

    Útil em casos complexos, útero muito aumentado, doença focal ou dúvida entre adenomiose, mioma e endometriose profunda. Avalia bem a zona juncional.


    Adenomiose e FIV: por que falham implantações?

    A adenomiose altera a receptividade endometrial e a contratilidade uterina, dificultando a implantação do embrião mesmo quando há embriões de boa qualidade. Em pacientes com falhas repetidas de FIV, investigar adenomiose é fundamental.

    O tratamento prévio com supressão hormonal (análogos de GnRH por 2-3 meses) antes da transferência de embriões congelados tem mostrado melhora nas taxas de implantação em estudos recentes.


    Tratamentos atuais: como preservar o útero

    Tratamento clínico (hormonal)

    • DIU de levonorgestrel: excelente opção para reduzir sangramento e dor, com alta satisfação.
    • Progestagênios orais (dienogeste): controlam dor e reduzem sangramento.
    • Anticoncepcionais combinados em uso contínuo.
    • Análogos de GnRH: usados em ciclos curtos, especialmente antes de FIV.
    • Gestrinona: opção em casos selecionados de dor refratária.

    Tratamento cirúrgico conservador

    Em casos de adenomiose focal (adenomioma), pode-se realizar adenomiomectomia — ressecção do nódulo preservando o útero. É uma cirurgia delicada, indicada para pacientes que desejam manter a fertilidade.

    Histerectomia

    Indicada apenas em casos refratários, em pacientes sem desejo reprodutivo e com doença extensa, sintomas debilitantes ou anemia importante. Hoje é cada vez menos a primeira escolha — preservar o útero quando possível é o objetivo.


    Quando procurar um especialista?

    Se você tem cólicas progressivas, sangramento menstrual abundante, útero aumentado em exames ou está enfrentando falhas de FIV sem causa aparente, vale investigar adenomiose. Avaliação ginecológica especializada, com imagem dirigida e plano individualizado considerando idade e desejo reprodutivo, é o melhor caminho.

    Aviso: Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação individualizada por profissional de saúde. Condutas diagnósticas e terapêuticas devem ser definidas em consulta, considerando a realidade de cada paciente.