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    Endometriose

    "Você sabia que até homem pode ter endometriose?" Até onde a endometriose pode chegar

    05 Fev 2025
    12 min de leitura

    Quando pensamos em endometriose, a imagem usual é de uma doença exclusivamente feminina, restrita à pelve – ovários, trompas, ligamentos e intestino. Mas a literatura médica descreve casos em locais tão improváveis quanto pulmão, diafragma, coração, sistema nervoso central, cicatrizes cirúrgicas e até em pessoas designadas do sexo masculino ao nascimento (AMAB) expostas a estrogênios.

    Neste texto, vamos revisar a fisiopatologia da endometriose (teoria celômica, menstruação retrógrada, fatores genéticos e imunológicos) e ilustrar, com casos publicados, o quanto essa doença pode ser "migratória" – reforçando que, embora a apresentação extrapélvica e em homens seja extremamente rara, ela existe e ajuda a entender a complexidade biológica da doença.

    Resumo em 3 pontos

    • 1.A endometriose não é explicada por uma única teoria – é um modelo multifatorial (menstruação retrógrada, metaplasia celômica, disseminação linfática/hematogênica, genética e imunologia).
    • 2.Casos extrapélvicos (pulmão, diafragma, coração, SNC) são raros, mas bem documentados e ajudam a entender a doença como fenômeno sistêmico.
    • 3.Existem relatos de endometriose em homens – a maioria sob terapia estrogênica – reforçando o papel da metaplasia celômica e do ambiente hormonal.

    Fisiopatologia da endometriose: como o tecido "viaja" pelo corpo?

    As diretrizes da ESHRE e revisões recentes reforçam que não há uma única teoria capaz de explicar todos os fenótipos de endometriose. Em vez disso, falamos em um modelo multifatorial, que combina fatores anatômicos, hormonais, imunológicos, genéticos e ambientais.

    1Teoria da menstruação retrógrada (Sampson)

    É a explicação clássica: durante a menstruação, parte do sangue reflui pelas trompas para a cavidade peritoneal, levando células endometriais viáveis que implantam em superfícies peritoneais. Quase todas as mulheres apresentam algum grau de menstruação retrógrada, mas apenas uma parcela desenvolve doença, o que sugere que outros mecanismos são necessários (como falhas de depuração imune).

    2Teoria celômica / metaplasia

    A teoria celômica propõe que células mesoteliais (do peritônio, pleura, pericárdio) têm potencial de se transformar em tecido semelhante ao endométrio sob certos estímulos, como inflamação crônica ou exposição hormonal. Isso ajuda a explicar casos de endometriose em locais distantes, como pleura e diafragma, mesmo sem evidência clara de "semeadura" a partir do útero.

    3Disseminação linfática e hematogênica

    Alguns autores sugerem que células endometriais ectópicas podem alcançar órgãos distantes via vasos linfáticos ou sanguíneos, semelhante à disseminação de células tumorais. Essa hipótese é particularmente evocada em casos de endometriose pulmonar, cerebral e em órgãos sem comunicação direta com a pelve.

    4Suscetibilidade genética

    Estudos de agregação familiar e de associação genômica sugerem predisposição genética, com polimorfismos em genes ligados à resposta imune, inflamação, angiogênese e metabolismo hormonal. Ter parentes de primeiro grau com endometriose aumenta o risco, embora não garanta que a doença vá ocorrer.

    5Disfunção imunológica

    Em pessoas com endometriose, há evidências de eliminação ineficaz de células endometriais ectópicas pelo sistema imune, além de ambiente peritoneal pró-inflamatório, com aumento de macrófagos ativados, citocinas (IL-1, IL-6, TNF-α) e fatores de crescimento. Isso cria um "solo fértil" para implantação e manutenção de lesões ectópicas.

    6Ambiente hormonal e epigenética

    Lesões endometrióticas apresentam expressão aberrante de receptores hormonais, enzimas de aromatase (produção local de estrogênio) e alterações epigenéticas que favorecem proliferação e sobrevivência celular. Em homens expostos a estrogênio exógeno (por exemplo, no tratamento de câncer de próstata), esse ambiente hormonal pode teoricamente permitir a diferenciação ou sobrevivência de tecido semelhante ao endométrio em locais ectópicos.


    Endometriose extrapélvica: pulmão, diafragma, coração e cérebro

    Os sítios extrapélvicos mais bem documentados incluem pleura, parênquima pulmonar, diafragma e parede torácica, frequentemente agrupados sob o termo "síndrome da endometriose torácica". Casos em coração, sistema nervoso central, canal lacrimal, cicatrizes distantes e dedos da mão são descritos em relatos isolados, ressaltando que se trata de fenômeno raro, mas possível.

    🫁 Endometriose pulmonar e torácica

    Relatos de endometriose pulmonar descrevem sintomas como hemoptise catamenial (tosse com sangue apenas no período menstrual), pneumotórax catamenial e dor torácica cíclica. A maior parte envolve mulheres em idade reprodutiva, muitas sem doença pélvica diagnosticada previamente.

    🔲 Diafragma e pleura

    Lesões diafragmáticas podem causar dor no ombro direito ou dor torácica que piora na menstruação. Muitas vezes são encontradas incidentalmente durante videolaparoscopia para endometriose pélvica.

    ❤️ Endometriose cardíaca e pericárdica

    Casos extremamente raros de envolvimento cardíaco foram descritos em contexto de endometriose torácica, com relato de dor torácica cíclica e achados em imagem e cirurgia. Em geral, são descritos como extensões ou variantes da endometriose torácica.

    🧠 Endometriose de sistema nervoso central (SNC)

    Relatos de endometriose em encéfalo ou medula espinhal são excepcionais, geralmente na forma de case reports. Pacientes podem ter crises convulsivas ou déficits neurológicos cíclicos associados ao ciclo menstrual. A fisiopatologia proposta envolve disseminação hematogênica e potencial metaplasia em tecidos com origem celômica.

    📍 Locais inusitados: canal lacrimal, dedo da mão, cicatrizes distantes

    A literatura descreve, esporadicamente, endometriose em canal lacrimal, tecidos subcutâneos de dedos da mão e em cicatrizes cirúrgicas não ginecológicas, muitas vezes com aumento de volume e dor cíclica. São exceções que confirmam o princípio de que, em teoria, qualquer tecido com irrigação e potencial de resposta hormonal pode ser "semeado" em circunstâncias específicas.

    ⚠️ Ponto importante

    Esses casos são curiosos e didáticos, mas extremamente raros quando comparados ao padrão clássico pélvico; não justificam rastreio de rotina em pessoas assintomáticas.


    Endometriose em homens: como isso é possível?

    Sim, existem relatos de endometriose em homens. A maioria envolve pacientes em tratamento com estrogênios ou antiandrogênios para câncer de próstata, embora existam casos sem essa exposição clara.

    O que mostram os relatos de caso?

    Um caso clássico descreve um homem de 40 anos com dor abdominal e massa pélvica; a histologia revelou tecido com glândulas e estroma endometrial, positivo para receptores hormonais, compatível com endometriose. Revisões de literatura compilam poucos dezenas de casos, muitos com história de longos períodos de terapia estrogênica ou antiandrogênica para neoplasia prostática.

    Teorias para endometriose em homens

    • Metaplasia celômica sob influência estrogênica: células do peritônio e estruturas derivadas do celoma poderiam sofrer metaplasia para tecido semelhante ao endométrio quando expostas a altos níveis de estrogênio.
    • Restos müllerianos remanescentes: em teoria, persistência de restos embrionários dos ductos de Müller poderia, sob certas condições, diferenciar-se em tecido endometrial ectópico.
    • Fatores imunológicos e inflamatórios: tal como em mulheres, a falha na depuração de células "anômalas" pode contribuir para a persistência dessas lesões.

    Esses casos não significam que endometriose seja comum em homens – pelo contrário, são exceções extraordinárias, importantes mais para compreensão da fisiopatologia do que para prática clínica rotineira.


    O que essa "endometriose por todo o corpo" muda na prática?

    • Mostra que endometriose é um fenômeno sistêmico, com forte componente de inflamação, imunologia e hormônios, e não apenas um "problema local do útero".
    • Reforça a importância de considerar endometriose em diagnósticos diferenciais de sintomas cíclicos atípicos (hemoptise, dor torácica, sintomas neurológicos cíclicos), sobretudo em mulheres em idade reprodutiva.
    • Ajuda na educação de pacientes: saber que a doença pode ter apresentações "fora do óbvio" aumenta a atenção para sinais precoces e reduz a sensação de que "é tudo psicológico".
    • Por outro lado, lembra que casos extrapélvicos e em homens são raríssimos – a grande maioria terá endometriose pélvica clássica.

    Perguntas frequentes

    Endometriose pulmonar é comum?

    Não. É extremamente rara, mas está documentada na literatura médica. Deve-se suspeitar quando há hemoptise (tosse com sangue) ou dor torácica que coincidem com o período menstrual.

    Homens podem realmente ter endometriose?

    Existem relatos publicados, embora sejam exceções extraordinárias. A maioria envolve exposição a estrogênios (como no tratamento de câncer de próstata). Esses casos reforçam o papel da metaplasia celômica e do ambiente hormonal na doença.

    Devo me preocupar com endometriose fora da pelve?

    Na grande maioria dos casos, a doença é pélvica. No entanto, se você tem sintomas cíclicos incomuns (dor torácica, tosse com sangue, dor no ombro), vale a pena mencionar ao seu médico.

    O que é a teoria celômica?

    É a teoria que propõe que células de revestimento (mesoteliais) podem se transformar em tecido semelhante ao endométrio sob certos estímulos. Ajuda a explicar endometriose em locais distantes do útero.

    A endometriose é uma doença autoimune?

    Não é classificada como doença autoimune, mas tem componentes imunológicos importantes. A disfunção na eliminação de células ectópicas e o ambiente pró-inflamatório são fatores centrais na fisiopatologia.

    Quando suspeitar e procurar avaliação?

    Se você apresenta dor pélvica intensa, sintomas cíclicos respiratórios ou intestinais, ou quadros de dor relacionados ao ciclo menstrual em locais incomuns, vale discutir a possibilidade de endometriose com especialista em ginecologia ou dor pélvica.

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    Referências

    1. Becker CM et al. ESHRE guideline: endometriosis. Hum Reprod Open. 2022;2022(2):hoac009.
    2. Commentary on the new 2022 ESHRE endometriosis guidelines. Hum Reprod Open. 2022.
    3. Hsu A et al. Endometriosis in a Man as a Rare Source of Abdominal Pain. Case Rep Obstet Gynecol. 2018.
    4. Endometriosis in a Man as a Rare Source of Abdominal Pain: Case Report and Review. 2018.
    5. Extrapelvic Not Rare – Endometriosis in Persons AMAB.
    6. Endometriosis of the lung: report of a case and literature review. 2013.
    7. Yao J et al. Endometriosis of the lung: a case report and review of literature. 2023.
    8. Cardiac involvement resulting from thoracic endometriosis: case report and review.
    9. Endometriosis in Men and Boys without Aneuploid Features – EndoMarch.

    Aviso: Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação individualizada por profissional de saúde.